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UFMT Araguaia terá primeiro curso de formação de professores indígenas da região

Previsto para o início de 2027, o curso busca fortalecer a educação escolar indígena Xavante ao unir conhecimentos acadêmicos e saberes tradicionais
  • Categoria: Geral
  • Publicação: 17/10/2026 12:14
  • Autor: ROTA DO ARAGUAIA

Da Assessoria
ICHS/UFMT Araguaia

 

O Ministério da Educação (MEC) aprovou a criação do curso de Licenciatura Intercultural Indígena no campus da Universidade Federal de Mato Grosso, em Barra do Garças (UFMT Araguaia). A formação de professores indígenas em nível superior será realizada, inicialmente, com estudantes do povo A'uwẽ Uptabi (Xavante). Oferecido pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), o primeiro curso desse tipo na região representa um marco para a educação indígena no Médio Araguaia, pois é pensado a partir da cultura, da língua e da realidade das próprias comunidades.

O projeto começou a ser desenvolvido há vários anos, mas a implantação dependia de recursos financeiros. Uma articulação entre o movimento indígena e o MEC garantiu os recursos necessários para o início das atividades. A direção do ICHS já começou a realizar as primeiras visitas às aldeias para a implementação do curso. “Essas visitas são fundamentais para aproximarmos a Universidade das comunidades e conhecermos de perto suas realidades, demandas e necessidades”, explica a diretora do Instituto, professora Ranielle Sousa.

Ela destaca a importância do curso tanto para a UFMT quanto para o povo Xavante: “É muito representativo e simbólico ver a comunidade indígena ocupar de fato a Universidade, que passa a ser também um território indígena. Ao mesmo tempo, o grande objetivo é fortalecer o direito à educação e formar professores dentro de seus próprios territórios.”

Fortalecimento das comunidades

A Licenciatura Intercultural oferecerá 50 vagas para a formação de professores Xavante. Voltado a docentes que atuarão nos anos finais do Ensino Fundamental e Médio, o curso não faz restrição a aldeias ou terras indígenas específicas, contemplando o povo Xavante de forma ampla. O ingresso ocorrerá por meio de processo seletivo, tendo requisitos como o Ensino Médio completo e comprovação de pertencimento a um povo indígena.

Com duração de quatro anos, o curso tem como proposta qualificar professores para atuar nas próprias comunidades, articulando conhecimentos acadêmicos aos saberes tradicionais e contribuindo para o fortalecimento da língua, da cultura, da identidade e das práticas educativas indígenas. A formação contará com duas habilitações, Linguagens e Humanidades e Ciências da Natureza e Matemática, além de pesquisa e extensão, estágio supervisionado e produção de materiais didáticos voltados à realidade das comunidades.

Para o coordenador do Território Etnoeducacional Xavante, Xisto Tserenhiru, a criação da licenciatura é uma importante conquista, após muitos anos de luta. Segundo ele, as articulações começaram em 2009, quando lideranças Xavante passaram a buscar uma formação superior específica para os professores indígenas. Depois de reuniões, elaboração de projeto e diálogo com o MEC e a UFMT, a proposta saiu do papel. Segundo ele, a universidade ensina a pedagogia e a ciência, enquanto o povo indígena contribui com seus conhecimentos tradicionais. “Antes, muitos professores precisavam deixar suas famílias e viajar para outras cidades e até outros estados para conseguir fazer uma licenciatura. Agora teremos essa formação construída para a nossa realidade e dentro do nosso território de atuação”, explica o líder indígena.

A graduação oferecida pela UFMT Araguaia adota a chamada “pedagogia da alternância”: o curso será dividido entre o “tempo escola”, com aulas presenciais concentradas no campus da Universidade, em Barra do Garças, e o “tempo comunidade”, período em que os estudantes desenvolverão estágios, atividades de extensão e pedagógicas dentro das aldeias. Esse modelo permite que os alunos permaneçam próximos de suas comunidades durante toda a formação e que os conhecimentos adquiridos sejam aplicados diretamente nas escolas indígenas.

A conquista é celebrada também por quem acompanha a proposta desde o início. Referência em educação indígena, a professora aposentada da UFMT Araguaia Águeda Borges atuou em muitos projetos de formação de professores com os povos Munduruku, no Pará, Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e Tapirapé, em Mato Grosso, e esteve entre as primeiras pessoas a trabalhar na elaboração do projeto da Licenciatura Intercultural. Para ela, é preciso corrigir uma lacuna histórica nas universidades brasileiras, que “dão pouca importância para os saberes indígenas”.

Águeda destaca que a formação de professores indígenas exige, antes de tudo, uma postura diferenciada de quem ensina: “Se não for junto com eles, tentando aprender, deixando se abrir para aprender também com eles, não funciona. Você acaba impondo um modelo que não é deles, não é para eles”.

Próximos passos

Segundo a diretora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da UFMT Araguaia, Ranielle Sousa, as próximas etapas incluem a atualização do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), a organização da agenda de trabalho, além da publicação dos editais para seleção dos estudantes e dos professores colaboradores.

A expectativa é que o processo seletivo seja realizado ainda este ano. “Vamos retomar a agenda com a comissão, o movimento indígena e os Xavantes, pensar o processo seletivo e, então, abrir a primeira turma. A previsão é iniciar as aulas no primeiro semestre de 2027”, explica.