Vídeo | Desembargadora de MT desabafa após ser confundida com funcionária em supermercado
Adenir Carruesco usou as redes sociais para refletir sobre o “não-lugar” social e como o preconceito inconsciente ignora cargos de poder: “Sem a toga, sou apenas mais um corpo preto”
- Categoria: Geral
- Publicação: 19/05/2026 16:23
- Autor: Leticia Avalos
A desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso (TRT-MT), Adenir Carruesco, mulher negra, usou suas redes sociais para fazer um desabafo no domingo (17). Em vídeo, ela relatou uma experiência constrangedora em um supermercado de Cuiabá que ilustra o que a sociologia e a teoria crítica da raça chamam de racismo estrutural e institucional.
Ela relatou que, após uma caminhada matinal, foi ao supermercado e, enquanto tentava fazer suas compras, foi abordada diversas vezes por uma mulher que supôs que ela era funcionária do estabelecimento.
A magistrada fez questão de esclarecer que a mulher em questão não disparou ofensas ou cometeu atos de racismo, mas que a situação pode ser vista como uma representação do “não-lugar” social.
Carruesco argumenta que quando a razão coletiva de um país associa historicamente a população negra a cargos de subalternidade e serviço, o cérebro das pessoas passa a operar em um modo “automático” de associação. Ver uma mulher negra em um espaço comum, como um supermercado, gera o gatilho mental imediato de que ela está ali para servir.
“Olá! Hoje é domingo, dia 17 de maio de 2026. Domingo é dia de tirar a toga. Eu fiz a minha caminhada matinal e passei pelo supermercado. Caminhando entre as gôndolas, fui abordada insistentemente por uma senhora que queria informações sobre os produtos e sobre a localização deles. Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que estava ali para servi-la. Mas essa senhora não cometeu nenhum ato racista; ela agiu pela lógica — pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou: o lugar natural do preto é o serviço.
“A lógica diz: ‘Preto não ocupa espaços de poder, preto não é juiz, preto não é desembargador, os pretos brasileiros não estão nos tribunais superiores; basta ver. E a mulher negra, menos ainda’. Eu, desembargadora, sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal. O problema não é aquela mulher no supermercado; é a lógica que ela, sem saber, reproduz. Uma lógica que precisa ser desmontada, um domingo de cada vez”, relatou a magistrada.
A reflexão mostra como o status profissional, o sucesso acadêmico e a autoridade jurídica, que costumeiramente blindam cidadãos brancos, são “removidos” de uma pessoa negra no momento em que ela deixa o seu gabinete. Na rua, o preconceito ignora o crachá e o cargo.
O desabafo da magistrada é um eco do que milhares de profissionais negros, médicos, engenheiros, juízes, diplomatas, enfrentam diariamente no Brasil. Mudar essa estrutura exige exatamente o que ela propôs no final: desmontar essa lógica, um domingo de cada vez, tensionando esses espaços e ocupando os lugares de poder até que a presença negra neles deixe de ser uma exceção estatística e passe a ser vista como natural.
Biografia (Informações do TRT-MT)
Natural de Santa Cruz de Monte Castelo (PR), ingressou na Justiça do Trabalho mato-grossense em 20 de outubro de 1994 como juíza do trabalho substituta. Em 2004 foi promovida a titular e exerceu o cargo nas unidades de Alta Floresta e Primavera do Leste. Em 21 de outubro de 2005 foi removida para a 1ª Vara de Rondonópolis, onde permaneceu por 16 anos. Em 09/12/2021 tomou posse como Desembargadora do Trabalho.
Adenir Carruesco foi Presidente e Corregedora do TRT da 23ª no biênio 2024/2025 e exerceu a Presidência do Colégio de Presidente e Corregedores dos Tribunais Regionais do TRabalho (Coleprecor).
Atualmente, é Diretora da Escola Judicial do TRT23 e atua na 1ª Turma de Julgamento do Tribunal.
Veja o vídeo:
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