Da catedral à mesquita: coincidência entre Quaresma e Ramadan marca 2026
Com datas definidas com base nas fases da lua, fieis do catolicismo e ilsamismo realizam ações semelhantes de jejum e oração
- Categoria: Geral
- Publicação: 20/03/2026 13:10
- Autor: Aline Costa/ LEIAGORA
Em 2026, os períodos sagrados do Catolicismo e do Islamismo se encontraram na mesma época do ano no calendário ocidental, entre fevereiro e março. A Quaresma e o Ramadan unem fiéis em diferentes tradições, mas com um objetivo comum: a aproximação com Deus e a transformação interior, principalmente por meio do jejum, da caridade e da oração. Os períodos trazem, para cada um dentro de sua religião, a esperança de alcançar graças e de construir uma vida melhor.

“As noites de Ramadan na mesquita têm uma paz que não se encontra em nenhum outro lugar”, afirma o sheik da Mesquita de Cuiabá, Ibrahim, Al-rai. Ele conduz as orações no templo e explica que o período é o mais esperado por um islâmico, que vê uma chance única de redenção e conexão com Alá a cada ano. É um momento de expiação e de crescimento espiritual.
Enquanto a luz do sol tocar a terra nos dias de Ramadan, o fiel deve se abster de alimentos, relações íntimas e cigarro.
Se por um lado os dias para os islâmicos são de jejum, por outro, o período inteiro de 40 dias é de penitências entre os católicos, com a Quaresma. Durante esse tempo, os cristãos católicos de todo o mundo escolhem algum prazer para se abster. É um período de buscar a Deus e trazer reflexão para si mesmo.
“Na igreja Católica, os fiéis do mundo todo estão vivendo em penitências e em súplicas a Deus. É o momento em que todos os católicos se unem numa única prece, numa única súplica em penitências a Deus por si, pelos outros, pelo mundo e isso abre as comportas do céu de uma maneira única”, explica o padre Raul Felipe da Cruz Berto, diretor da Fundação Bom Jesus de Cuiabá.
Tanto na Quaresma quanto no Ramadan, os fieis terminam seus períodos de penitência com uma festa. Os católicos celebram com a Páscoa, festa da ressurreição de Cristo e os islâmicos terminam com o Eid Al Fitr ou “Celebração do Fim do Jejum”, celebração de partilha de

alimentos.
Em comum, está a busca não apenas pela aproximação com o divino, mas por se tornar uma pessoa melhor para aqueles que estão ao seu redor. Fazer caridade e ter um olhar atento são coisas que o jejum auxilia a promover, de acordo com ambos os líderes religiosos.
Mesmo que em 2026 o Ramadan e a Quaresma tenham caído em períodos semelhantes, isso não é algo comum. Ambos são escolhidos com base em diferentes critérios que têm como ponto de partida os ciclos e fases da lua.
O Ramadan
O Ramadan ocorre sempre no nono mês do calendário islâmico, que é formado por 12 meses de 29 ou 30 dias. Ele é o período mais aguardado por um islâmico, pois o jejum é uma forma genuína de agradar a Deus. Este ano, a comemoração teve início em 17 de fevereiro e término nesta quinta-feira, dia 19 de março, e contou com 30 dias de oração e jejum para renovarem sua conexão com Alá e se dedicarem a atos de devoção.

A definição da data segue o sistema lunar e o calendário Hijri (islâmico), definido pela migração do Profeta Muhammad (também conhecido como Maomé no ocidente) de Meca para Medina. Ele determina todas datas religiosas do Islã.
“Algumas pessoas acreditam o Ramadan é só deixar de comer ou beber, mas é mais que isso, é ter paciência, refletir sobre as pessoas. Durante o mês, Ramadan é uma escola, para cada mulçumando melhorar a cada dia, sua caridade, sua consciência”, explicou.
Além da abstinência total de alimento durante o período do dia, existem as cinco orações obrigatórias que devem ser realizadas por todos os islâmicos. Um painel na Mesquita revela o horário certo de cada uma delas, adaptado ao fuso horário de Cuiabá. As orações podem ser realizadas em casa ou no templo, sendo a da sexta-feira ao meio-dia importante de se estar na Mesquita. No local, mulheres e homens ficam em um espaço separado e não são permitidos de verem uns aos outros.
Ao final do período, uma festa celebra o desjejum, o Eid al-Fitr. Este ano ela é realizada na sexta-feira (20) a partir das 6h30. O sheik explicou que geralmente participam entre 250 a 350 fieis.
A mesquita também está aberta à visitação. Interessados podem acompanhar os horários pelas redes sociais do local. Mulheres que desejam

participar devem utilizar véu para cobrir os cabelos, item disponibilizado pelo próprio templo.
“A mesquita é aberta para todo mundo, para os muçulmanos e para os não-muçulmanos. Há pessoas quando escutam sobre sobre o islã acham que ele é especialmente para árabes e isso não é correto. Nós sempre recebemos visita de faculdades, de escolas e também existem aqui islâmicos brasileiros, isso significa que a mesquita não é algo para uma nação específica, mas paara todos”, destacou Ibrahim Ali-Rai.
E a Quaresma?

O período vem desde os primórdios da Igreja Católica, conforme explica o padre Raul. Com uma duração de 40 dias, ele remonta a um número visto de forma recorrente na Bíblia Sagrada.
“O número 40 da Bíblia, ele sempre vai ter um significado de decisão, sabe? É 40 dias que Jesus passou no deserto, 40 anos que o povo caminhou no no deserto. Então, o 40, ele sempre dá essa realidade de um tempo para se tomar uma decisão”, contou.
A Quaresma é, basicamente, o período de 40 dias anteriores à Páscoa e ocorre primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de outono (no Hemisfério Sul). Esse tempo também representa uma forma de transformar a vida do cristão, de viver as práticas de penitência e, além de se abster de um alimento, também tentar ser uma pessoa melhor, com um olhar atento para si mesmo, sem causar danos ou difamação ao próximo.
“Nós estamos em uma época onde com as redes sociais, Instagram e tudo mais, a gente vive a base de filtros. Com isso, nós não temos um olhar sincero para nós. E não tendo um olhar sincero para nós, nós não nos abrimos à graça que Deus quer realizar em nós”, pontuou o padre.
Ele ressaltou que é um período para os pecadores, e não para os perfeitos. Um período para todo aquele cristão ter consciência de que todos carecem da graça de Deus.

Independente de religião, os meses sagrados de cada religião trazem mensagens de bênçãos e graça divina, buscada por meio de ações. Com Quaresma e Ramadan unificados, estão mais pessoas conectadas, buscando a esperança de milagres, de um mundo melhor, que começa dentro do coração de cada fiel.
“O que eu desejo a todos os cristãos desse tempo da Quaresma é deixar cair as escamas dos olhos, tirar as máscaras, tirar os filtros e deixar que a luz de Deus ilumine o seu interior. Ele irá mostrar por onde devemos caminhar, por onde devemos mudar, por onde devemos deixar Deus agir para que a Páscoa seja transformante, não somente no mundo, mas na sua vida também”, finalizou o sacerdote.
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