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Marechal Rondon , a história do homem que abriu caminho pelo brasil sem derramar sangue.

O explorador que se recusou a matar e que ousou "morrer se preciso for, matar Nunca", Um personagem real que desmonta tudo que a gente pensa sobre expansão territorial no país.
  • Categoria: Geral
  • Publicação: 01/02/2026 11:50
  • Autor: SBT Barra
Muitos brasileiros conhecem o nome Marechal Rondon por causa da estrada, a SP-300, que atravessa o interior paulista de ponta a ponta. A gente vê placas, cruza viadutos, passa pelos pedágios e segue viagem sem pensar muito nesse nome que acompanha o asfalto. E, no entanto, para a maioria de nós, ele é só isso: um nome de rodovia. Eu mesmo sempre acreditei que essas homenagens vinham de figuras ligadas à expansão territorial cheia de violência, porque quase sempre é assim que nossa história funciona. Foi uma surpresa descobrir que, neste caso, não. Rondon foge completamente da regra. Ele é um daqueles raros personagens brasileiros que merecem ser lembrados pelo avanço da sociedade sem que isso esteja marcado por sangue, pelo respeito aos povos que já habitavam esta terra muito antes de existir um Brasil e pela capacidade de abrir caminhos sem destruir vidas. Descobrir sua história é quase como reencontrar uma parte boa do país que a escola não nos conta.

O dom de Rondon - Quatro cinco um
Mas, pra entender a história desse cara, minha parte favorita de contar, de escrever, é o contexto histórico da época. Pra entender essa figura, a gente precisa entender o que se passava no Brasil da época de Rondon. Era um país jovem, desigual e fraturado, ainda preso aos reflexos da escravidão e à lógica de um Império que se sustentava sobre o trabalho forçado e a concentração de poder em poucas mãos. Um território gigantesco, mas mal costurado: litoral rico, interior esquecido, decisões tomadas no Rio de Janeiro enquanto vastas regiões do país seguiam abandonadas à própria sorte. A Guerra do Paraguai estava em andamento e tragava homens pobres para defender interesses que não eram os deles. Povos indígenas eram vistos como obstáculo ao “progresso”. A ideia de nação ainda era mais fantasia política do que realidade vivida. Era um Brasil que crescia para fora, mas não crescia para dentro. Nesse cenário, figuras como Rondon, com sua origem mestiça, sua vivência de fronteira e sua compreensão profunda do território, surgiam quase como anomalias históricas. Enquanto o país avançava sobre terras indígenas com violência e cobiça, ele avançaria com mapa, ciência e respeito.
Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em 5 de maio de 1865, no coração do Mato Grosso, e veio ao mundo carregando duas marcas que moldariam sua trajetória. A primeira era a origem entrecruzada, filho de mãe indígena e pai de ascendência europeia, criado em uma família que o ensinou a transitar entre universos culturais distintos com naturalidade. A segunda era a disciplina, quase rígida, que parecia vir de dentro. Perdeu os pais muito cedo, cresceu sob cuidados de parentes e aprendeu, ainda menino, que a vida seria mais dura para ele do que para muitos. Em vez de sucumbir, transformou isso em propósito.
Entrou no Exército aos quatorze anos. Era tímido, magro, mas com uma inteligência que chamava atenção. Destacou-se nos estudos, mergulhou na matemática e na engenharia, e conseguiu algo raro para alguém de sua origem: uma vaga na Escola Militar do Rio de Janeiro. Enquanto muitos viam a carreira militar como destino, ele enxergava como ferramenta. Queria entender o Brasil em profundidade, com suas matas, serras, rios e povos invisíveis para o centro político do país.
Foi por esse talento técnico e pela capacidade de lidar com território difícil que, em 1890, aos vinte e cinco anos, foi chamado para integrar a Comissão de Linhas Telegráficas. O Brasil tentava se modernizar, mas o interior permanecia isolado, e era preciso costurar o país por fios. Rondon aceitou a missão e, com ela, aceitou entrar em regiões onde quase nenhum brasileiro não indígena havia ousado pisar.

Marechal Rondon: o explorador que conectou a Amazônia e defendeu os povos  indígenas - Portal Amazônia
Nas expedições, encontrou um país ainda sem nome completo. Trilhas engolidas pela mata. Chuvas que apagavam mapas. Malária que derrubava equipes inteiras. Distâncias que transformavam qualquer deslocamento em jornada quase impossível. E povos indígenas vivendo como viviam havia séculos, muitos deles tendo como único contato com o Estado brasileiro a violência dos invasores. Rondon percebeu rápido que não fazia sentido repetir este ciclo.
Seu método se tornou algo extraordinário. Ele recusava qualquer forma de violência contra indígenas, mesmo quando sua equipe era ferida. Não apenas não matava, como não revidava, e isso contrariava o padrão do expansionismo brasileiro. Foi ali que nasceu sua frase histórica, que não era poesia, mas ética prática: morrer se preciso for, matar nunca. Ele não queria impor o Brasil aos povos originários; queria construir convivência. Quando um grupo indígena destruía utensílios da expedição ou atacava acampamentos, Rondon respondia com presentes, paciência e respeito. Em vez de ver inimigos, ele via pessoas que estavam defendendo suas terras da mesma forma que ele defenderia a própria casa.
Entre 1900 e 1915, liderou expedições monumentais, abrindo linhas telegráficas entre Cuiabá e o Acre, cartografando enormes áreas e entrando em regiões onde um erro significava morte. Foi engenheiro, diplomata, estrategista, antropólogo intuitivo e conciliador, tudo ao mesmo tempo. A República podia avançar sem repetir os massacres coloniais, e ele era a prova viva.
Em 1913, veio o capítulo mais famoso de sua vida: a Expedição Roosevelt-Rondon. O ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, já fora da vida política e afundado em depressão, buscava uma aventura que lhe devolvesse propósito. O Brasil, querendo impressionar, ofereceu-lhe algo que unisse utilidade e grandeza: explorar o misterioso Rio da Dúvida, um rio que aparecia nos mapas como um risco sem origem, sem foz e sem certeza. Batizado assim justamente porque ninguém sabia para onde ele ia, o rio atravessava a selva mato-grossense e era a parte mais enigmática da Amazônia acessível naquele momento. Era um buraco geográfico imenso dentro de um país imenso.
Roosevelt aceitou e veio. E o governo brasileiro foi taxativo: só havia um homem capaz de liderar aquilo. Rondon.

Marechal Rondon cria Serviço de Proteção aos Índios (SPI), transformado em  Funai | Acervo
A expedição foi brutal. A mata parecia fechar as portas atrás deles. Barcos se partiam, corredeiras engoliam equipamentos, febres surgiam como maldições, animais e fome se tornavam rotina. Roosevelt quase morreu, literalmente. Perdeu cerca de quarenta quilos, deliriou por dias e só sobreviveu porque Rondon e sua equipe diminuíram o ritmo, cuidaram dele e tomaram decisões essenciais para mantê-lo vivo. Depois de semanas de tormento, conseguiram finalmente mapear o curso do Rio da Dúvida, descobrindo que ele descia até o rio Madeira. Para homenagear a sobrevivência quase milagrosa de Roosevelt, o Brasil rebatizou o rio com o nome dele. Hoje, o Rio Roosevelt percorre regiões protegidas entre o Amazonas, Rondônia e o Mato Grosso, trazendo consigo a história dessa travessia quase impossível.
E é aqui que vem uma das curiosidades mais bonitas da nossa história. Décadas depois, quando o Brasil reorganizou seus territórios federais, o antigo Território do Guaporé, uma imensa faixa amazônica ligada justamente às regiões que Rondon havia explorado, mapeado e conectado ao restante do país, recebeu um novo nome. Em 1956, ele passou a se chamar Rondônia. Não por acaso, não por coincidência, não por som parecido. Rondônia significa literalmente terra de Rondon. É uma homenagem direta ao homem que ajudou o Brasil a enxergar aquela região no mapa e, mais importante, aos povos que viviam ali. Uma homenagem rara, justa e merecida.
Aos poucos, o país começou a reconhecer o valor daquele homem que descortinava o Brasil com fios, mapas e gestos de paz. Em 1910, foi criado o Serviço de Proteção aos Índios, o SPI, o primeiro órgão do mundo voltado a proteger populações indígenas. Rondon assumiu a direção com ideias avançadas para o período: defender o direito dos povos originários de existir, preservar suas culturas e garantir que o contato com o Estado fosse feito sem destruição. Décadas depois, já fora de sua gestão, o SPI mergulharia em escândalos, mas o projeto original carregava o espírito de quem entendia que progresso não precisava significar extermínio.
Rondon viveu com simplicidade quase monástica, recusando cargos políticos e qualquer oportunidade de enriquecer. Sua coerência era tão forte quanto sua disciplina. Em 1955, foi promovido a marechal, um dos raríssimos brasileiros a receber o posto em vida. Morreu em 19 de janeiro de 1958, aos noventa e dois anos, tendo ajudado a costurar o Brasil por dentro e, mais do que isso, tendo mostrado que havia uma maneira menos violenta de se relacionar com povos originários.
Hoje, seu nome atravessa debates sobre direitos indígenas, preservação ambiental e memória nacional. Seu legado não está na ausência de erros, mas naquilo que carregava como essência: a defesa obstinada da dignidade humana. Ele acreditava que o Brasil só poderia ser um país inteiro se todos os seus povos fossem tratados com respeito. E isso, afinal, é a marca dos raros homens que fazem história não pela força, mas pela consciência.